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“Sozinha, inclusão não resolve problemas”,

Desafios da Inclusão Social é um dos temas preferidos do historiador e arqueólogo Pedro Paulo Funari, coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp. O assunto também vai dominar o próximo Congresso Internacional do Instituto de Estudos Brasil Europa (IBE), marcado para dezembro deste ano, em Belém (PA) e que terá como tema “Avançando na Inclusão. Pedro Paulo Funari concedeu entrevista exclusiva à reportagem do IBE durante a última reunião do Comitê Diretivo do instituto, realizada em meados de junho, na Unicamp. Funari ministrou palestra de duas horas sobre o assunto e fez uma abordagem histórica."Trata-se das transformações das sociedades 
modernas desde o século XVIII, com destaque para o papel do estado nacional e imperial, primeiro, e as críticas, nas últimas décadas à noção de sociedade homogênea", observou. A seguir, a entrevista.
Elizeth Araújo
Assessora de Imprensa do IBE
 
Em sua palestra o senhor fez uma abordagem histórica da inclusão/exclusão. Poderia resumi-la aqui?
Pedro Paulo Funari – O objetivo da palestra foi mais do que só tratar da inclusão e da exclusão. Foi mostrar que o próprio termo “inclusão” é historicamente delimitado. Até os séculos 18,19 e até meados do século 20, essa não era uma preocupação, porque a ideia era que as pessoas todas tinham de ser iguais e que as pessoas que estavam excluídas estavam fora de maneira proposital. Elas deveriam ficar fora porque não faziam parte da maioria. A partir do fim da Segunda Guerra Mundial temos uma mudança grande: a inclusão da ideia de diversidade humana, de diversidade cultural, a diversidade social e de que nós, portanto, devemos ter as minorias ou os grupos específicos sendo levados em conta.
 
Poderia dar um exemplo prático nos dias de hoje?
Por exemplo, as mulheres, que não tinham direito a voto, não entravam na universidade, as minorias religiosas, as minorias étnicas, pessoas com problemas de locomoção, de audição, de visão. Tudo isso que era considerado algo irrelevante ou que deveria ser deixado de lado passou a ser o centro da atenção. Esse foi o primeiro foco da palestra.
 O segundo foco foi quais os problemas que isso traz. Não são só coisas positivas. A inclusão social tem o lado positivo, naturalmente, que é você trazer as pessoas que antes estavam fora, como as mulheres, mas isso não muda os desafios, que continuamos tendo. Primeiro, verificar se essa inclusão não faz com que as pessoas percam suas características ou não. Será que, por outro lado, não mantemos essas pessoas em guetos? Às vezes, a inclusão leva à mudança de comportamento das pessoas que fazem parte da maioria.
Que tipo de mudança de comportamento?
Um exemplo que citei na palestra do IBE é que as mulheres são maioria na sociedade, mas são minoria em todos os cargos diretivos. Então, se você tenta fazer com que as mulheres tenham cargos diretivos, se tenta fazer com que elas tenham posição de comando é uma inclusão. Mas ao mesmo tempo que medida você não faz para que as mulheres tenham que mudar o seu comportamento? Elas têm que ter um comportamento masculino, porque os colegas são masculinos, o horário de trabalho é masculino. As questões domésticas ou pessoais dela, como por exemplo, querer ficar com os filhos, tudo isso tem de ser posto em segundo plano, porque o padrão que foi adotado é masculino. Então, mesmo quando se está fazendo a inclusão, não se resolvem todos os problemas. A palestra teve esse objetivo de mostrar que a política de inclusão social é uma política recente, dos últimos 70 anos, e, portanto, não é algo natural, que tenha característica histórica. Não há só coisas positivas, mas há problemas e muitos desafios. Não apenas “vamos fazer a inclusão social”.
Outro desafio que se nota é que, muitas vezes, até os intelectuais falam com desdém do tema inclusão, como se fosse um modismo. A discussão inclusão e exclusão, principalmente com relação às mulheres, aos negros, homossexuais e pessoas com dificuldades de locomoção não está se esgotando? Como o senhor analisa todo esse cenário?
Funari – Isso faz parte das contradições geradas pelo tema da inclusão. Se é verdade que o tema valor da diversidade e do respeito à diferença no mundo, no Brasil, nesse período que falei, nos últimos 70 anos se tornou cada vez mais aceito e mesmo difundido a ideia de respeitar a diferença, valorizar a diferença. Respeitar e valorizar a todos mulheres, homossexuais e outras minorias. Respeitar e até valorizar, porque é uma maneira de ser que é diferente e é tão válida quanto outra. E isso tudo acaba gerando também contradições, porque as pessoas não necessariamente aceitam isso. Elas podem se sentir prejudicadas.
IBE - É isso está acontecendo entre os evangélicos e os homossexuais?
Funari – Se você fala que todo mundo tem de aceitar, mas se eu sou evangélico, a Bíblia está dizendo que não pode. A pessoa acha que não pode, porque está na Bíblia. Não estou nem endossando, estou dizendo do ponto de vista da interpretação. O evangélico acha que isso não é possível. E aí, como é que se vai fazer? São dois grupos. O grupo de evangélicos também não teria direito a ter sua diversidade? Então, como é que se concilia? São os problemas das contradições do mundo em que vivemos. Ao respeitar a diversidade, encontra-se divergências.

IBE- Como situamos esse tema entre Brasil e Europa?
Funari – Há questões gerais que são comuns, como essa que eu citei. O movimento geral em torno da diversidade é comum ao mundo ocidental. Então, poderíamos dizer que Europa e Brasil estão caminhando juntos nesse aspecto. Mas há particularidades tanto no Brasil quanto no interior da Europa. No caso Brasil e Europa, vejo que a questão maior é que o Brasil tem uma experiência recente de democracia, em 1988 com a Constituição. Então, a nossa experiência é muito recente e voltada para essa ideia de diversidade num contexto em que nós ainda não temos muitas pessoas de outros países por aqui. Começamos a ter essa questão agora, com bolivianos, haitianos, mas num nível ainda muito pequeno em relação ao caso europeu. A Europa é o contrário, tem um pouco mais de tempo. É democrática desde a Segunda Guerra Mundial. Tem mais tempo, mas tem problemas, tem características de diversidade muito profundas que aqui, tanto internas, em cada país, quanto com imigração.