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Confira a síntese das discussões do 3º Congresso do IBE

Na abertura o Prof. Moacyr Martucci frisou que o IBE tem mais de 30 parceiros, o que é um resultado da atividade de diálogos. Também destacou outras atividades como a elaboração do projeto de doutorado multi-institucional internacional, o curso de PG lato sensu em preparação pela UFMG e ENA, além do estímulo a pesquisas e a atribuição de prêmios.

A Reitora, em exercício, Profa. Lúcia Pacheco, mencionou que mais de metade dos convênios internacionais da UFSC são com instituições europeias, ressaltando essa interação concreta com a europas se deu pelas necessidades da pesquisa, do ensino e da inovação.

A embaixadora Carmem Moura apresentou um histórico das recentes articulações BR EU na área de C & T, que se intensificaram e foram objeto de ações bilaterais sistêmicas nos últimos 25 anos. O Ministro conselheiro Afonso Albuquerque frisou que grandes esforços advém de grandes necessidades, e este é um momento em que é necessário envidar esforços pra intensificar as relações BR EU, para ambos parceiros enfrentarem as crises, atual e vindouras.

A seguir, o Embaixador Viégas minstrou sua palestra, da qual se citam alguns pontos: Nem na Europa nem em lugar algum se tem claro como enfrentar alguns problemas vitais: mudança do clima; crise econômica; luta contra o terrorismo; confrontos religiosos e guerras civis; pobreza e miséria; a construção de um sistema internacional verdadeiramente democrático.

Citou os problemas da perda de crença na política, na crescente concentração de riqueza e poder na maioria do planeta, na perplexidade diante de problemas como as mudanças climáticas e o terrorismo, temas ligados a soluções que devem ser globais, mas que encontram os limites na construção de um sistema internacional baseado na justiça e não na força.

A isso se somam as tecnologias que colocam a nosso alcance enormes volumes de conhecimento, ou de informação, mas surge a questão de quando se chegará à saturação, ou à estagnação.

Cito sua conclusão: já não temos tempo para elocubrações fantasiosas. Temos que cuidar de um presente cheio de dificuldades. Temos crises por resolver e não sabemos como. Já não podemos confiar nos políticos nem nos financistas e talvez nem mesmo nas máquinas. Tampouco queremos soluções produzidas por guerras, por ditaduras ou por assimetrias de poder. Em quem, então, podemos confiar? Nos professores, é claro. Cabe, agora, ressaltar a beleza das peças apresentada pelos músicos da Camerata. Villa Lobos exemplifica bem o uso da imaginação e a busca do belo para fundir as peculiaridades das tradições musicais europeias com aquelas específicas das populações o Brasil.

A primeira mesa redonda do 3º Congresso do IBE teve por tema “Tecnologia, Inclusão e Sustentabilidade” e foi coordenada pelo Prof. Dr. Jarbas Bonetti Filho. Os palestrantes convidados foram o Sr. Augusto de Albuquerque, Ministro-Conselheiro, Chefe da Sociedade da Informação e Mídia da Delegação da União Europeia no Brasil e o Prof. Dr. Rubens Onofre Nodari do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina.

O professor Bonetti deu início à sessão resgatando a temática à luz do evento maior e das ações do IBE. Assinalou que um dos objetivos do Instituto é incentivar o diálogo bilateral através da identificação de temas a serem abordados de modo cooperativo em diferentes áreas disciplinares e lembrou que essa seleção tem por norte documentos que estabelecem as políticas públicas para Ciência e Tecnologia no Brasil e na Europa que apresentam referenciais que subsidiam a seleção de áreas estratégicas para investimento e que na mesa seriam destacados três deles: a tecnologia, a inclusão e a sustentabilidade, destacando a seguir que as políticas associadas a esses temas devem ter sua continuidade garantida e resguardada de reorientações econômicas e administrativas.

A seguir o Ministro Augusto de Albuquerque discorreu sobre as iniciativas da Comunidade Europeia no âmbito da Bioeconomia. Mostrou que a Europa reconhece a existência de grandes desafios nas áreas de recursos naturais, mudanças climáticas, segurança alimentar, desenvolvimento econômico e social, produção sustentável, segurança energética e saúde pública. Especificamente, mostrou as dificuldades associadas à implantação de políticas agrícolas sustentáveis e fez considerações sobre os impactos associados.

Tendo essas questões por referência, apresentou a estratégia de Bioeconomia da Comunidade Europeia, que busca aliar produção e conservação. Destacou mais amplamente o Observatório de Bioeconomia, implantado como resultado da avaliação crítica do plano de ações até então em vigor. Concluiu ressaltando a importância e o interesse em se fomentar e estreitar a cooperação com a América Latina, apresentando as ações apoiadas e os recursos financeiros disponíveis. Mostrou, por fim, as relações da Bioeconomia com três prioridades apontadas pelo Horizon 2020: excelência científica, liderança industrial e desafios da sociedade.

O Prof. Rubens Nodari falou sobre sustentabilidade, destacando que diversas práticas em vigor na área de políticas agrícolas são, a rigor, insustentáveis. O professor apresentou a evolução histórica das inovações associadas ao uso de recursos genéticos, do sedentarismo à agricultura química, com destaque para a domesticação de plantas. Mostrou que na era antropocênica o crescimento econômico esteve sempre aliado à perda de biodiversidade. Ponderou que a Biotecnologia talvez não seja a real solução inovativa e propôs uma inovação associada ao estabelecimento de novos paradigmas que valorizem a biodiversidade e a paisagem local. Nesta linha indicou como possíveis caminhos a diversificação da dieta, a produção voltada a demandas locais e o incremento da policultura. Como desafios lembrou da necessidade de produção de alimentos sem agrotóxicos e de concessão de maior autonomia energética aos produtores. Conclui sugerindo que um dos caminhos para a pesquisa nessa temática seja a abordagem participativa.

A mesa sobre “Saúde, Tecnologia e Qualidade de Vida” foi coordenada pela Profa. Dra. Yara Rauh Müller e teve a participação dos professores Eduardo Tavares Costa, do Centro de Engenharia Biomédica da Universidade de Campinas e João Batista Calixto, do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina. O prof. Eduardo discorreu sobre as linhas de atuação de seu grupo, bem como apresentou dados sobre a construção de um sistema de ultrassom, mostrando também a complexidade do sistema brasileiro na liberação e utilização dos recursos públicos destinados aos projetos institucionais, o que dificulta , quando não inviabiliza trabalhos na área da pesquisa, do desenvolvimento e da inovação.

O prof. Calixto fez uma recuperação histórica da obtenção e uso de fármacos, chegando ao final a demonstrar o déficit do Brasil na área, a necessidade de implementar no país as diferentes etapas na obtenção, desenvolvimento, teste e comercialização de fármacos, considerando que isso exige uma interação entre pesquisa de ponta, formação de recursos humanos de alto nível bem como a atuação de empresas associadas à pesquisa e ao desenvolvimento. Enfatizou ainda que deve haver políticas institucionais, independente de circunstâncias temporais de política e governança internas, que possibilitem esses trabalho conjunto.

No painel sobre Interdisciplinaridade na Universidade do Futuro, Roberto Vecchi apresentou o tema, sublinhando que esse debate se faz urgente, por demandas de solução que apresentam novos e complexo problemas da sociedade, para os quais as abordagens atuais se mostram insuficientes.

O Prof. Ronaldo Mota apresentou sua visão sobre a necessidade da interdisciplinaridade no ensino e na inovação. A inovação exige a interdisciplinaridade pela complexidade dos problemas a serem enfrentados hoje, no ensino isso é exigido pelo próprio perfil dos estudantes, em sua proficiência nas tecnologias de informação e comunicação.

A Professora Carla Salvaterra apresentou uma interessantíssima abordagem sobre o desenvolvimento, tanto no plano teórico como prático, da interdisciplinaridade. Finalmente o Prof. Hélio Waldmann apresentou o tema a partir da experiência da UFABC, após uma crítica à abordagem de problema, para os quais sempre tínhamos pretendido encontrar soluções simples ou lineares.

No Painel Cultura e Imaginação: Multiculturalismo e Diversidade. Em sua introdução, Raul Antelo relembrou que memória e imaginação denotam uma disseminação de percepções do tempo e do espaço que vai muito além do estrito terreno da realidade. Elas denotam certa presença do que está ausente. Mas o auxílio da memória e da imaginação é vital em aspectos sociais de utilidade privada e pública. Mas, como a presença do que está ausente não pode ter o mesmo valor que a presença do que está presente, há, a rigor, dois tipos de imaginação: de um lado, a imaginação-reprodução de tipo clássico, à qual a sensibilidade romântica atribui o gosto pela banalidade cotidiana, o encanto e acomodação da vida burguesa; e, de outro, a imaginação-criação, que tem o real como rival e só se ocupa dele para impugná-lo. Na cena contemporânea, redobradas doses de imaginação-criação devem nos auxiliar para não recairmos na surrada imaginação-reprodução.

A título ilustrativo, citou Dani Rodrik, professor de Ciência Política em Princeton, nos apresenta o assim chamado “trilema da globalização”, segundo o qual, não há nenhuma chance de termos hiperglobalização, democracia e auto-determinação nacional juntas porque, para Rodrik, que não podem existir, ao mesmo tempo, democracia, soberania nacional e completa inserção na globalização.

A professora Maria Filomena Molder tomou como mote o sopro, a respiração e o vento, vistos sob todas as intensidades e sob todos os efeitos, para afirmar que as muitas vozes do vento, mesmo que só possam ouvir-se depois dela, não correspondem à Torre de Babel. A partir de um filme de Joris Ivens, Une histoire de vent (1988), a autora se propôs uma experiência infraleve (inframince): escrever no livro de areia (Borges) e resgatar o desejo de “capturer l’image invisible du vent”.

Como no exotismo de Victor Segalen, como na escrita da distância de Henri Michaux, quem escreve, aliás, Um bárbaro na Ásia, pouco depois de percorrer a Minas barroca, o mesmo cenário onde Aníbal Machado situa “o iniciado do vento”. Pois é aí onde Antelo resgatou um fragmento de Cadernos de João, intitulado “Descosendo o espaço”, onde Aníbal, concisamente, disse “O pássaro agonizante põe pela boca os milhares de quilômetros que devorou pelos ares”, aforismo que, a seu modo, sintoniza com a premissa de Chillida, que é também a de Maria Filomena Molder, a arte não é refúgio, mas intempérie.

O professor Ettore Finazzi-Agrò, por sua vez, definiu o multiculturalismo como “uma somatória imperfeita de projeções figurais dependendo de camadas étnicas e/ou sociais heterogêneas”, ao passo que tomou o imaginário como “uma área simbólica agregando elementos diversos, no intuito de construir um paradigma ‘legítimo’ onde as várias exigências acabam por encontrar um ‘lugar’ compromissório e virtual, marcado não apenas pela isotopia, mas também pela isocronia”, ou seja, por uma história comum e coerente.

O termo “multiculturalismo” delimitaria, então, tanto um espaço de liberdade imagética, em que o tempo funciona de forma discreta e intempestiva, quanto um lugar metafórico de assimilação imperativa dos diferentes nos limites de um tempo e de um espaço homogêneos, embora imaginários. Apoiado em Massimo Cacciari, quem afirmara que, no mesmo instante em que, na tradição ocidental, emerge o Dois [isto é, a diferença e o conflito com o Oriente], emerge também a procura em relação à sua origem, às suas relações internas, ao seu próprio fim, o palestrante nos disse que é a partir da maravilha suscitada pela emergência e pelo estar/consistir dos Dois que se impõe, filosoficamente-politicamente, a questão da relação entre um e muitos.

A conexão do múltiplo, inventado, caso a caso, através da determinação de um meio, só poderá ser pensada então como artifício, convenção, pacto, ou até mesmo como produto de uma decisão arbitrária. Segundo Finazzi-Agrò, a origem de uma autêntica sociedade multicultural não reside, portanto, no pacto fundacional, mas na diferença de fato; não está na paz mas no vórtice da violência, naquele “redemunho” diabólico que turbilhona no meio do caminho e que não permite o acesso a nenhum meio, a nenhuma mediação entre os opostos, condenando o “homem humano” a uma travessia sem origem nem destino.

Contra a mestiçagem, como origem de uma cultura unitária ou híbrida, o palestrante propôs uma cultura plural, que combina os dois ou os muitos sem apagar as diferenças, guardando, nietzscheanamente, o caráter multíplice do tempo e o anarquismo e a circularidade da história, atributos que se ilustrariam na composição de Macunaíma de Mário de Andrade. Nela constaríamos certa passagem da potência ao ato, da língua à palavra, do comum ao próprio que cada vez acontece nos dois sentidos, seguindo uma linha de cintilação alternada, e aqui se destacaria o conceito de cintilação (Agamben) mas que podemos encontrar em Araripe Jr (obnubilação) ou em Pasolini/Didi-Huberman como sobrevivência dos vagalumes.

Uma conclusão provisória do debate seria a de que os estudos da cultura enquanto estudos da multi-culturalidade, só se tornam possíveis graças ao conceito de confim (confim da materialidade ocidental-oriental em Molder, confim de primitivismo e modernidade no “tupi tangendo um alaúde” de Finazzi-Agrò) para o qual a realidade não é um plano de consistência homogênea, mas um extremo de alta heterogeneidade ou até mesmo, de heterogênese.

Na palestra de encerramento o Prof. Alvaro Prata ressaltou a importância da educação, da qual é excluída a maioria dos jovens.

Falou das vantagens do Brasil como área com solo produtivo, recursos minerais, potencial para energia renovável (47%), ciência forte e população criativa. Mencionou as deficiências, que são as desigualdades, pouca educação em ciência, pouca gente no ensino superior, pouca inovação no setor produtivos e falta de infraestrutura em muitos setores, o que inclui falta de engenheiros. Expôs a lista de prioridades do atual governo, que tem o item transformar o país em uma potencia científica e tecnológica inovadora. Educação, ciência, inovação e empreendedorismo se alimentam mutuamente. Listou os avanços da sociedade brasileira na pós-graduação, nos acesso a informação cientifica.

Passou a listar instrumentos estratégicos pra estimular a inovação, como os Sibratec (Sistema Brasileira de Redes para serviços tecnológicos e inovação), as incubadores e parques científicos tecnológicos, e a Empresa Brasileira de Pesquisa Industrial e Inovação. O Prof. Prata fez uma explanação sobre a Embrapii, explicitando os mecanismos, como crédito, bolsas, investimento, deduções fiscais e compras governamentais.

Enfatizou a importância das redes sendo construídas, que incluem instituições europeias, mostrando a expansão delas, como as da CNI, das fundações de apoio à pesquisa.

Finalizou dizendo que ainda estão definindo como serão as relações com os países europeus e com a UE.